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Amor patológico: quando amar dói

amor patológico
Escrito por Daniela Faertes

O amor patológico é caracterizado por um comportamento excessivo e sem limites com relação a cuidados e atenção voltados ao parceiro amoroso. Os pensamentos e a vida da pessoa que sofre com o problema passam a girar em torno do companheiro, e o controle exagerado das atividades do outro faz com que o indivíduo abandone as próprias atividades e interesses, que antes lhe davam prazer.

Este termo é uma adaptação do que em inglês denominam como love addiction, conceito que surgiu nos Estados Unidos a partir da observação de que pessoas que seguiam esse padrão de relacionamentos amorosos funcionavam de forma muito semelhante a pessoas que possuíam adições, apresentando características como excesso, prejuízo pessoal, relacional e até profissional, falta de controle e sofrimento. É um comportamento mais recorrente na população feminina e não se refere à quantidade de amor, mas, à qualidade do vínculo amoroso. Cuidado e atenção são atitudes esperadas dentro de uma relação e fazem bem a ambos os parceiros, mas, quando existe uma atitude exagerada, excessiva e sem controle sobre a vida do outro, o amor despendido se torna patológico.

As pessoas mais propensas a desenvolver os sintomas do amor patológico, normalmente, possuem algumas características em comum, como pavor de serem abandonadas, crenças de desamparo, medo da solidão e impossibilidade de ficar sozinhas. Além disso, a maioria apresenta baixa autoestima, sofreu algum abuso na infância (psicológico, físico ou sexual) e relata que o relacionamento dos pais era disfuncional, ou seja, apresentava algum problema incomum à maioria dos casais.

Em grande parte dos casos, essas características pessoais são reveladas desde os primeiros namoros na adolescência, mas, nessa fase é impossível fazer o diagnóstico de amor patológico, pois, é muito comum estabelecer relações intensas durante a adolescência, época em que ainda não foi formado um padrão de relacionamento.

A continuada atitude excessiva em relação ao parceiro, mesmo diante de evidências concretas de que isto está sendo prejudicial para alguém, é a característica número um para o diagnóstico de amor patológico. Mas, basicamente, o que diferencia uma atitude normal de uma patológica é a incapacidade de o indivíduo controlar esse excesso, o abandono dos interesses pessoais e a incapacidade de sair de uma relação prejudicial.

Pessoas que sofrem de amor patológico podem apresentar alguns sintomas durante a ausência ou distanciamento do parceiro, como angústia, tristeza e irritabilidade. Em determinadas situações, o indivíduo consegue enxergar os comportamentos exagerados e os prejuízos que trazem à relação e tentam reduzi-los ou controlá-los, mas, não conseguem.

Os sintomas abaixo podem indicar um quadro de amor patológico. Esses critérios foram adaptados do utilizado para dependência de substancias no DSM-IV

1 – Sinais e sintomas de abstinência – quando o parceiro está distante (física e emocionalmente) ou diante da ameaça de abandono podem surgir sintomas como insônia, taquicardia e tensão muscular, alternando períodos de desânimo e intensa atividade;

2 – O ato de cuidar do parceiro ocorre em maior quantidade do que o indivíduo gostaria – a pessoa costuma se queixar de manifestar atenção ao parceiro com maior frequência ou em um período mais longo do que pretendia inicialmente;

3 – Atitudes para reduzir ou controlar o comportamento patológico são malsucedidas – em geral, já ocorreram tentativas frustradas de diminuir ou interromper a atenção ao companheiro;

4 – É despendido muito tempo para controlar as atividades do parceiro – a maior parte da energia e do tempo do indivíduo são gastos com atitudes e pensamentos para manter o parceiro sob controle;

5 – Abandono de interesses e atividades antes valorizadas – como o indivíduo passa a viver em função dos interesses do parceiro, as atividades propiciadoras da realização pessoal e profissional são deixadas de lado, como o cuidado com os filhos, atividades profissionais, convívio com colegas, entre outras;

6 – O amor patológico é mantido, apesar dos problemas pessoais e familiares – mesmo consciente dos danos advindos desse comportamento, persiste a queixa de não conseguir controlar tal conduta.

O sinal vermelho para se procurar ajuda em uma relação de amor patológico acontece quando a própria pessoa percebe esse exagero, mas, não consegue controlar o comportamento. Algumas vezes, familiares e amigos acabam levando o indivíduo para um tratamento, mas, em alguns casos, a própria pessoa busca tratamento, geralmente, devido a ameaças de abandono ou separação por parte do parceiro.

O tratamento para o amor patológico pode ser feito por psicoterapia e medicações, que ajudam a reverter quadros de ansiedade e depressão. O objetivo do tratamento é fazer a pessoa voltar a se relacionar emocionalmente de forma prazerosa e saudável, além de investir no próprio desenvolvimento e em projetos individuais. Assim como para dependência de álcool e outras drogas existem grupos anônimos no mesmo formato como o MADA (Mulheres que Amam Demais),

As perguntas a seguir não são determinantes para diagnosticar um quadro de amor patológico, mas, servem como reflexão. Fique atento!

- Você costuma se sentir satisfeito com a quantidade de atenção e tempo que dedica a(o) seu(ua) parceiro(a) ou percebe que fez mais do que gostaria ou do que ele (a) mereceria?

– Na ausência do(a) companheiro(a), você consegue continuar fazendo as suas coisas normalmente, sem alteração física devido a pensamentos constantes (Ex. taquicardia, insônia, dores musculares, tontura, etc.) ou alteração emocional (Ex. tristeza, angústia, medo, etc.)?

– Você acha que a quantidade de atenção e de tempo que disponibiliza a(o) seu(ua) parceiro(a) está sob controle ou já tentou se conter e não conseguiu?

– Você mantém outros interesses e relacionamentos ou abandonou pessoas e atividades?

– Você não se preocupa e/ou não despende tempo buscando controlar a vida do seu parceiro?

– Você continua se desenvolvendo pessoal e profissionalmente após o início do seu relacionamento amoroso?

Sobre a autora

Daniela Faertes

Daniela Faertes é psicóloga, especialista em terapia cognitiva e mudança de comportamentos prejudiciais. Formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) se especializou em renomados institutos nos Estados Unidos da América.

Especializou-se também pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), IPUB – UFRJ e Instituto Albert Einstein em temas específicos. Atuou no Serviço de Psiquiatria da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e, como supervisora, coordenou o núcleo de tabagismo e criou o setor de amor patológico. Atualmente, é uma das pioneiras em trazer para o Brasil os novos modelos e técnicas de Psicoterapia Cognitiva (Dialectical behavioral Therapy, ACT, Mindfullness).

É membro da American Cognitive Therapy Association e professora convidada da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro da graduação e pós-graduação e clinica nas áreas de mudança comportamental, bem-estar, transtornos psiquiátricos, dependência química e outras compulsões.

Além disso, possui ainda trabalho voltado para as áreas do comportamento social (relacionamentos disfuncionais, orientações para pais, novas famílias, dinâmicas empresariais e coaching).

Atuou como psicóloga do projeto Humaniza SUS, do Ministério da Saúde, com foco em mudança de comportamento institucional e qualidade de vida. Conferencista de congressos nacionais e internacionais.

Hoje, é Diretora do Espaço Ciclo no Rio Janeiro, palestrante e supervisora clínica e de Grupos de Estudo em Terapia Cognitivo. Busca manter-se em constante reciclagem, sendo audiência ativa no New York Academy of Medicine, Albert Ellis Institute e Addiction Institute, Beck Institute (PA).

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