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As pessoas mudam?

Escrito por Daniela Faertes

O que diferencia um comportamento saudável de um comportamento nocivo? Basicamente, a idéia de prejuízo (em alguma área da vida – pessoal, social, familiar, financeiro ou no trabalho). Aqui, nos referimos a comportamento, não só como algo que fazemos externamente com frequência, mas também a modelos de pensar, de agir, de educar ou de se relacionar, a formas de se “se estar no mundo”. Para mudar um comportamento, o desejo é apenas o começo, um bom começo. A partir daí, faz-se necessário poder acessar ou construir recursos internos e externos e acessar todo o arsenal de instruções, habilidades, tratamentos e treinamentos disponíveis. Mudar é difícil E possível.

Mudar é difícil: Mudanças, mesmo para melhor, exigem esforço, novas configurações, a possibilidade de tropeçar, de se arrepender, privações, angústias, dúvidas. Tudo que repetimos vira um hábito (independente de por que fazemos), ou seja, tudo que fazemos com alguma frequência ao longo de certo tempo se torna automático. Isso é uma medida de “econômia cerebral” que foi e é necessária para nossa evolução e que na verdade torna o nosso acúmulo de tarefas diárias mais fáceis. Imagina se a cada vez que dirigíssemos, escrevêssemos, fizéssemos um caminho ou resolvêssemos um problema fosse difícil e despendêssemos o mesmo esforço da primeira vez? Entretanto, esta habilidade também pode funcionar contra nós, pois à medida que repetimos comportamentos, formas de pensar, falar e agir que não nos fazem bem, estes também entram no nosso sistema automático, e passam a acontecer com a fluidez da correnteza de nossas rotinas, e retornar, extinguir, ou seja mudar, vira o processo contrário ao natural.

Mudar é possível: É claro que não mudamos nossa essência, caráter ou sequer “viramos do avesso”. Mas com toda certeza somos capazes de aderir a novos comportamentos, novos hábitos, e novos formatos de estar na vida. Na maioria das vezes para que um comportamento ou um hábito se instaure efetivamente a ponto da pessoa ter dificuldade de mudá-lo, ele vem acontecendo ao longo de um tempo, aos poucos e não de uma hora para outra, e sendo nós humanos,  seres resistentes a mudanças rápidas, na medida em que tentamos mudar algo e não conseguimos, surge uma sensação, como se aquilo já fosse parte de nós, impassível de mudança, ou seriam traços de personalidade dos quais estaríamos fadados a sermos reféns.  Todos nós já nascemos com uma certa tendência genética, ou seja uma predisposição a certas questões como impulsividade, ansiedade, menor tolerância a certos estados emocionais, mas que não são suficientes sem um contexto psicossocial de criar  comportamento.

Lembre-se: a vida é dinâmica e querendo ou não estamos em um movimento constante de mudanças.

Listei 10 dicas sobre mudança já demonstradas por inúmeras pesquisas e erros muito comuns observáveis na minha prática clínica:

– É mais fácil trocar um hábito nocivo por um saudável, do que somente extinguir um hábito, implementar novos comportamentos saudáveis, mexer na rotina.

– Desvalorizar  pequenos ganhos – são estes que vão nos dando fôlego pra continuar e a acreditar que realmente estamos caminhando.

– Entender como se formou e o que mantém o comportamento – os motivos que deram início a questão não necessariamente são os mesmos que as mantém. É preciso entender ambos.

– Avaliar prós e contras do comportamento –  Sim, apesar de você achar que não, este modelo nocivo de agir tem suas vantagens, e “é  preciso reconhecê-las, para poder deixa-las.”

– Estabelecer metas reais – estabelecer um objetivo e dividi-lo em pequenas metas.

– Aproveitar uma recaída, ou uma crise. Uma crise muitas vezes é um “empurrão” pra uma mudança, como o ápice do que é negativo e  que faltava para motivar essa pessoa a mudar.

 – Negligência na manutenção. A mudança de comportamento é composta da mudança em si mas, principalmente, da manutenção desta que portanto deve ser cuidada, ao longo da vida.

– Estabelecer um plano de ação e não hesitar em solicitar ajuda.

– Clarificar as barreiras para mudança, prestando atenção a pequenos detalhes.

– Brincar de laboratório – faça testes com você mesmo (do que funciona pra você ou não) – não existe melhor pesquisa do que a que fazemos com nós mesmos.  – mudar ou adicionar novas estratégias.

A mudança de comportamento é uma atitude. É um esforço pessoal de um indivíduo em modificar hábitos ou condutas prejudiciais a si e, por vezes, àqueles que estão ao redor, com auxílio ou não de profissionais e/ou especialistas.

Sobre a autora

Daniela Faertes

Daniela Faertes é psicóloga, especialista em terapia cognitiva e mudança de comportamentos prejudiciais. Formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) se especializou em renomados institutos nos Estados Unidos da América.

Especializou-se também pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), IPUB – UFRJ e Instituto Albert Einstein em temas específicos. Atuou no Serviço de Psiquiatria da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e, como supervisora, coordenou o núcleo de tabagismo e criou o setor de amor patológico. Atualmente, é uma das pioneiras em trazer para o Brasil os novos modelos e técnicas de Psicoterapia Cognitiva (Dialectical behavioral Therapy, ACT, Mindfullness).

É membro da American Cognitive Therapy Association e professora convidada da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro da graduação e pós-graduação e clinica nas áreas de mudança comportamental, bem-estar, transtornos psiquiátricos, dependência química e outras compulsões.

Além disso, possui ainda trabalho voltado para as áreas do comportamento social (relacionamentos disfuncionais, orientações para pais, novas famílias, dinâmicas empresariais e coaching).

Atuou como psicóloga do projeto Humaniza SUS, do Ministério da Saúde, com foco em mudança de comportamento institucional e qualidade de vida. Conferencista de congressos nacionais e internacionais.

Hoje, é Diretora do Espaço Ciclo no Rio Janeiro, palestrante e supervisora clínica e de Grupos de Estudo em Terapia Cognitivo. Busca manter-se em constante reciclagem, sendo audiência ativa no New York Academy of Medicine, Albert Ellis Institute e Addiction Institute, Beck Institute (PA).

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