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Endividamento

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Escrito por Daniela Faertes

Facilitação de créditos, métodos modernos de compras e acesso aos seus gastos online, diversas formas de pagamento e mais um arsenal de possibilidades… Isso tudo, a priori, deveria facilitar e ajudar na organização financeira, não é? Mas nem sempre é o que acontece, acarretando o surgimento de um problema comum a muitas pessoas de todas as classes sociais: o endividamento.

A cultura do consumo, a “quase” aceitação social da dívida, a presença de juros arbitrários, a apelação da mídia e da publicidade na venda de produtos e o início muito precoce de acesso a créditos e compras são mais alguns fatores que podem influenciar no endividamento, assunto que merece mais atenção e reflexão da sociedade.

O endividamento gera a sensação de incapacidade, impotência, desespero, estresse, preocupação, frustração e desânimo nas pessoas que estão passando pelo problema. Com o surgimento dessas emoções, esses indivíduos ficam ainda mais vulneráveis aos próprios impulsos e se tornam presas fáceis de estratégias que trazem alívio e conforto imediato como, por exemplo, o ato de fazer mais compras, gastar ainda mais e postergar ao máximo qualquer planejamento ou organização financeira.

Se você está entrando em um processo de endividamento, seguem algumas perguntas para reflexão:

– O excesso de dívidas é uma simples “bagunça” financeira ou será que remete a outras questões? Acha que isso acontece por conta dos juros acumulados fazendo com que você se mantenha nessa situação? Ou sente que o excesso das dívidas recai, principalmente, sobre questões referentes a um descontrole, muitas vezes, sobre um aspecto do consumo (como roupas ou artigos de luxo) que você já tentou controlar e não consegue?

* Essa resposta é importante para saber que tipo de endividado você é: desorganizado (precisa de orientações específicas); comprador compulsivo (sabe como estão as finanças, mas, não consegue se controlar, precisando, portanto, de tratamento); ou você pode ser os dois tipos.

– Como aprendeu a lidar com dinheiro? O formato da vida financeira dos seus pais serve para você?

* Se o estilo financeiro da sua família, herdado e adquirido neste âmbito, não serve para você, escolha outro coerente com os seus valores e motivações, mas, que não te aprisione. É muito comum que pessoas que, ao rejeitarem o formato de administração financeira aprendido na família, acabem indo para outro extremo ou, simplesmente, não se sintam configuradas em nenhum outro. É muito importante seguir um modelo de finanças que pode ser criado por você ou inspirado em outros.

– Os seus gastos não essenciais se referem, em grande parte, a que produtos ou serviços? E a que sentimentos te remetem (conforto, alívio, tédio, status)?

Agora, mais algumas dicas práticas importantes para quem está endividado: 

É necessário que você entenda e saiba com o quê, para quê e qual o sentido dos seus gastos. Demora um tempo até que um quadro de endividamento possa ser remetido por completo (de meses até anos) e a impressão de se estar sempre endividado desmotiva a implantação de uma mudança mais consistente no dia a dia. Com isso, surgem pensamentos sabotadores como: “Afinal, o que é mais cinquenta reais pra quem já está endividado?” Fique atento a isso!

Volte a pagar coisas em dinheiro, pois, as possibilidades de crédito e compras online contribuem para a perda da noção do valor do dinheiro. Pagar trezentos reais em seis notas de cinquenta em vez de pagar em seis vezes no cartão é uma ação que começa a soar muito diferente e o valor antes perdido volta a ser importante.

Cancele novos talões de cheques, diminua o limite do seu crédito, ande sempre que possível só com dinheiro. Isso é muito importante e, normalmente, um ponto resistente de aceitação. Mas, facilita se você enxergar a situação como um “experimento antropológico temporário” e trabalhar por mudanças.

Peça ajuda. Por conta de dificuldades em enfrentar a questão ou, simplesmente, pela noção de matemática necessária para o desenvolvimento do planejamento financeiro, peça para que alguém de sua confiança te auxilie.

Organize uma pequena planilha anual. Os meses deverão englobar até a última parcela de qualquer coisa que você já esteja devendo. Então, se a última estiver prevista para dezembro de 2016, você colocará a parcela, mês a mês, até essa data. Em cada mês, serão colocados cheques pré-datados, parcelas de cartão, parcelas de empréstimos bancários e quaisquer outras coisas ainda não quitadas, tudo que está sendo parcelado acrescido dos juros. Independente do que for, de roupas a gastos médicos, passando por quaisquer outras dívidas com instituições ou pessoas, tudo relacionado aos gastos deve ser inserido na planilha.

Faça o somatório desses valores referentes a cada mês, de preferência. Você precisa visualizar o tamanho do seu problema para poder resolvê-lo. A contagem regressiva dos meses que vão passando e sendo quitados pode ser reforçadora para pôr um fim ao endividamento.

Sobre a autora

Daniela Faertes

Daniela Faertes é psicóloga, especialista em terapia cognitiva e mudança de comportamentos prejudiciais. Formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) se especializou em renomados institutos nos Estados Unidos da América.

Especializou-se também pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), IPUB – UFRJ e Instituto Albert Einstein em temas específicos. Atuou no Serviço de Psiquiatria da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e, como supervisora, coordenou o núcleo de tabagismo e criou o setor de amor patológico. Atualmente, é uma das pioneiras em trazer para o Brasil os novos modelos e técnicas de Psicoterapia Cognitiva (Dialectical behavioral Therapy, ACT, Mindfullness).

É membro da American Cognitive Therapy Association e professora convidada da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro da graduação e pós-graduação e clinica nas áreas de mudança comportamental, bem-estar, transtornos psiquiátricos, dependência química e outras compulsões.

Além disso, possui ainda trabalho voltado para as áreas do comportamento social (relacionamentos disfuncionais, orientações para pais, novas famílias, dinâmicas empresariais e coaching).

Atuou como psicóloga do projeto Humaniza SUS, do Ministério da Saúde, com foco em mudança de comportamento institucional e qualidade de vida. Conferencista de congressos nacionais e internacionais.

Hoje, é Diretora do Espaço Ciclo no Rio Janeiro, palestrante e supervisora clínica e de Grupos de Estudo em Terapia Cognitivo. Busca manter-se em constante reciclagem, sendo audiência ativa no New York Academy of Medicine, Albert Ellis Institute e Addiction Institute, Beck Institute (PA).

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