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Impulsividade: quando nossos “freios” falham

Escrito por Daniela Faertes

Ao longo da história da civilização humana, o homem substituiu as reações instintivas por ações planejadas, pois o ato de escolher uma resposta comportamental mais apropriada e, portanto, menos impulsiva, é cada vez mais necessária para a evolução da nossa espécie. Por conta disso, grande parte das pessoas vêm desenvolvendo a capacidade de “frear” as reações impulsivas e de refletir antes de tomar decisões.

A impulsividade é um tipo de comportamento que pode ter consequências nocivas, caracterizado por reações rápidas e não planejadas, em que não há uma avaliação racional dos impactos que essa ação pode trazer. A pessoa foca apenas em aspectos imediatos, em detrimento das consequências que determinadas reações podem causar em longo prazo.

As causas do comportamento impulsivo são fontes de diversas pesquisas, que cresceram bastante na última década. Alguns autores explicam a impulsividade como sendo um traço da personalidade ou temperamento de um indivíduo. Outros, como um componente hereditário. Mas, o comportamento impulsivo pode também ter sido estimulado na infância por algum modelo familiar ou não ter sido regulado como deveria pelos pais ou responsáveis. Há também estudiosos que inserem a impulsividade como a “clínica do excesso”.

Assim, os comportamentos impulsivos acabam funcionando como modeladores de uma intolerância a determinados estados afetivos em indivíduos que possuem estratégias de regulação afetivas pouco adaptativas. Isso quer dizer que, quando uma pessoa está “tomada por uma emoção”, ocorre uma redução temporária da sua capacidade de reflexão. Dessa forma, a impulsividade é encarada como o resultado de tentativas de desvio ou alívio de emoções desagradáveis, que são ativadas por pensamentos associados ao mal-estar. Ou seja, os impulsivos são pessoas com menos habilidades de gerir afetos “negativos” do que outros indivíduos.

A impulsividade pode se tornar um comportamento extremamente destrutivo para a pessoa que sofre com o problema e quem está ao redor. Isso ocorre porque episódios de impulsividade repetidos geram uma frustrante sensação de incapacidade de controle e, por conta disso, são, muitas vezes, responsáveis por rompimentos familiares, problemas no trabalho, judiciais ou financeiros.

O comportamento impulsivo é identificado por um aumento de tensão, desejo ou excitação precedendo o ato e, logo depois, por um sentimento de alívio na realização da ação que, na maioria das vezes, é rapidamente substituída por arrependimento e culpa.

Além disso, a impulsividade também é o fenômeno central de diversos transtornos psiquiátricos e, em outros, o comportamento impulsivo surge sob a forma de sintoma.

Transtornos psiquiátricos em que o comportamento impulsivo é identificado:

  • Transtornos de personalidade borderline e antissocial; transtorno explosivo intermitente; dependência química; transtorno afetivo bipolar; transtorno do déficit de atenção e hiperatividade; alguns transtornos alimentares (bulimia nervosa e transtorno de compulsão alimentar periódica) e os próprios já denominados transtornos do impulso, que incluem a tricotilomania (arrancar os fios de cabelo para controlar a ansiedade e o nervosismo), a cleptomania (roubar coisas diversas, inclusive sem valor, sem ter consciência e, muitas vezes, necessidade para o ato), o jogo patológico e outras dependências comportamentais.

O tratamento psicoterápico para quem sofre de impulsividade deve incluir estratégias de autocontrole e aumento da resistência a esses estados afetivos. Além disso, ele deve abranger o modo com que o indivíduo recebe e interpreta informações do ambiente, bem como a maneira como se sente e pensa ao lidar com determinadas situações. Exercícios fisicos, tanto os que desgastam quanto os que relaxam, são extremamente eficazes em um processo de controle de impulsividade. Existem medicações que também podem ajudar no tratamento.

Porém, independente do grau de impulsividade, é importante não encarar o problema como se fosse uma característica pessoal, que não possa se tornar flexível ou como se o comportamento impulsivo fosse sinônimo de sinceridade e de “falar o que pensa”. Assim como em outros comportamentos nocivos, é importante que o indivíduo conheça de que forma funciona a sua impulsividade para que possa lidar melhor com ela.

O primeiro passo para lidar melhor com o comportamento impulsivo é observar e refletir sobre as seguintes perguntas e, dessa forma, reconhecer possíveis gatilhos para o tratamento do problema: 

– A impulsividade aparece mais comumente em algum ambiente ou momento do dia como no trabalho, trânsito, casa ou reuniões familiares? Você imagina o motivo para isso?

– O comportamento impulsivo é mais comum com alguém específico, como seu marido ou filho, ou aparece em decorrência de outra ação, ou seja, durante as refeições ou ao ir às compras?

– A impulsividade ocorre em que circunstâncias? Quando você está mais cansado? Quando tem muitas coisas a fazer? Quando não tem dormido bem? Para as mulheres, em algum período do mês como na TPM?

– Você encontra tempo na sua rotina para atividades de “esvaziamento” como atividades físicas prazerosas ou relaxantes?

– Você sabe reconhecer as suas emoções, ou seja, sabe quando está frustrado, com raiva ou triste? E qual a sensação que acompanha essas emoções? De revolta, insatisfação, injustiça, humilhação?

– Você já tentou criar ou utilizar alguma estratégia como não discutir quando estiver irritado, esperar o dia seguinte, ou escrever o que esta pensando antes de agir? Já tentou respirar profundamente? Funcionou?

– Você conseguiria listar os prejuízos que já teve ou vem tendo por ser impulsivo?

Sobre a autora

Daniela Faertes

Daniela Faertes é psicóloga, especialista em terapia cognitiva e mudança de comportamentos prejudiciais. Formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) se especializou em renomados institutos nos Estados Unidos da América.

Especializou-se também pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), IPUB – UFRJ e Instituto Albert Einstein em temas específicos. Atuou no Serviço de Psiquiatria da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e, como supervisora, coordenou o núcleo de tabagismo e criou o setor de amor patológico. Atualmente, é uma das pioneiras em trazer para o Brasil os novos modelos e técnicas de Psicoterapia Cognitiva (Dialectical behavioral Therapy, ACT, Mindfullness).

É membro da American Cognitive Therapy Association e professora convidada da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro da graduação e pós-graduação e clinica nas áreas de mudança comportamental, bem-estar, transtornos psiquiátricos, dependência química e outras compulsões.

Além disso, possui ainda trabalho voltado para as áreas do comportamento social (relacionamentos disfuncionais, orientações para pais, novas famílias, dinâmicas empresariais e coaching).

Atuou como psicóloga do projeto Humaniza SUS, do Ministério da Saúde, com foco em mudança de comportamento institucional e qualidade de vida. Conferencista de congressos nacionais e internacionais.

Hoje, é Diretora do Espaço Ciclo no Rio Janeiro, palestrante e supervisora clínica e de Grupos de Estudo em Terapia Cognitivo. Busca manter-se em constante reciclagem, sendo audiência ativa no New York Academy of Medicine, Albert Ellis Institute e Addiction Institute, Beck Institute (PA).

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